Igrejas Bizantinas no Neguev

14 Mar 2000
 SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS EM ISRAEL
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Igrejas Bizantinas no Neguev
 
     

No século I a.E.C., os nabateus (mercadores nômades da Arábia setentrional) estabeleceram um reinado no território do atual Reino da Jordânia, tendo Petra como capital. Eles haviam acumulado grandes riquezas no comércio de especiarias e perfumes caros da África Oriental e da Arábia, que transportavam em caravanas de camelos ao porto de Gaza, no Mediterrâneo meridional. Para garantir a segurança de suas rotas comerciais, os nabateus construíram estações de passagem nas interseções das rotas principais - em Kurnub (Mampsis), Shivta e Avdat.

No inóspito deserto do Neguev, os nabateus desenvolveram uma agricultura baseada em terraços construídos nas encostas e num sofisticado sistema para recolher cada gota da água disponível: para capturar as águas das torrentes, eles construíram represas nos vales; para recolher a água das chuvas, eles cavaram cisternas nas rochas. Suas estações de passagem desenvolveram-se, transformando-se em cidades.

O reino nabateu foi conquistado pelos romanos no ano 106 e anexado ao Império Romano.

 
 
Kurnub
 

Kurnub está localizada a uns 40 km a leste de Beer Sheva, sobre o nachal (córrego-seco) Mamshit. Os romanos fortificaram o local, incorporando-o ao limes, o sistema de fortalezas que demarcava e protegia a fronteira oriental do Império Romano. Durante os períodos romano e bizantino, Kurnub era uma cidade florescente. Na segunda metade do século IV foram contruídas aí duas igrejas. A cidade foi abandonada na época da conquista árabe (meados do século VII).

A igreja oriental foi construída no ponto mais alto da cidade. Ela faz parte de um conjunto medindo 55 x
25 m, que consiste de salas de serviço e uma pequena sala de banhos. Em frente à igreja havia um atrium (pátio) cercado por porticoes (naves cobertas); sob o pátio havia uma cisterna coberta com abóbadas. A igreja media 25,5 x 15 m, tinha duas fileiras de colunas, uma bamá (plataforma elevada) e uma abside. O átrio da igreja era lajeado de mosaico em formas geométricas e grandes cruzes; as naves eram calçadas com lajes de pedra. Ao sul da igreja foi encontrada uma pequena sala com uma pia batismal. Perto da entrada da igreja foi desenterrada parte das fundações de uma torre com quatro salas, aparentemente um campanário, pois lá foi encontrada um grande relógio solar de pedra.

A igreja meridional, menor porém mais esmerada, localizada na zona ocidental da cidade, era similar em sua forma. O piso de mosaico do átrio era dividido em medalhões octogonais com desenhos de pássaros e cestas de frutas, com dois pavões diante da plataforma elevada. Duas das inscrições dedicatórias mencionam um homem chamado Nilus, construtor da igreja, assim como os nomes de dois dos bedéis da igreja.

 
 
Shivta
 

Shivta está localizada a uns 40 km sudoeste de Beer Sheba. Alguns dos edifícios ainda de pé datam do período romano, mas a maior parte foi construída na época bizantina, quando os habitantes se dedicavam intensamente à agricultura. No século IV foram construídas duas igrejas (a setentrional e a meridional); posteriormente, com a expansão da cidade nos séculos V-VI, foi acrescentada uma igreja central. Aparentemente, Shivta foi abandonada durante o período islâmico (séculos IX-X).

A igreja meridional foi construída entre os prédios do período romano, perto das cisternas. Devido à falta de espaço, tinha apenas uma abside, com uma sala de cada lado. No século VI, estas salas foram transformadas em duas pequenas absides com pinturas nas paredes, cujos fragmentos mostram Moisés e Elias e a Transfiguração de Cristo. Numa fase posterior foram acrescentadas várias salas ao norte da basílica, inclusive capelas e um grande batistério com uma pia batismal de pedra em forma de cruz e outra menor, talhada na pedra, para o batismo de crianças. Uma inscrição sobre um lintel atesta que esses anexos foram construídos no início do século V, e outra no chão menciona o ano 640.

A igreja setentrional era parte de um grande mosteiro, que consistia de muitos pátios e cerca de 40 salas, no extremo norte da cidade. A única entrada da igreja era através de um átrio particularmente grande (21 x 15 m), que tinha uma abertura para a cisterna escavada na rocha, que se encontrava por baixo. Entre o átrio e a igreja há um narthex (passagem), que conduz à entrada tríplice da basílica, medindo 12 x 10 m, dividida por duas fileiras de seis colunas numa nave central e duas laterais. Conforme ocorreu na igreja meridional, a abside central original com uma sala em cada lado foi substituída por uma tríplice abside no século VI. Nichos nas paredes dos fundos continham, provavelmente, relicários. Placas de mármore cobriam o chão e a parte inferior das paredes.

Ao sul da basílica foi construída uma capela, com uma abside no lado oriental. O chão é lajeado de mosaico em formas geométricas e contém uma inscrição atestando que foi construída no tempo do bispo Tomás, no 5 ano da indicção (517).

O batistério, com uma grande pia batismal entalhada na pedra, fica ao sul da capela. Esta era usada também como cemitério, e contém várias pedras funerárias com os nomes dos monges e padres, entre 612 e 679.

A igreja central foi construída no centro do novo quarteirão residencial (séculos V-VI), na parte setentrional de Shivta. Contém um átrio pequeno e estreito, através do qual entra-se na basílica, que mede 18 x 14 m. Por todo o comprimento correm duas fileiras de quatro colunas e no lado oriental há três absides.

 
 
Avdat

 

 

 

Avdat está localizada numa cadeia de montanhas, no centro do Planalto do Neguev. Nos meados do século III ela foi repovoada, tornando-se importante posto militar avançado romano, com um bairro residencial no contraforte sudeste da acrópole. No século VI, sob o domínio bizantino, estima-se que havia em Avdat cerca de 3.000 habitantes. Novos produtos agrícolas eram cultivados nos vales em torno da cidade e várias prensas de vinho que foram escavadas indicam um intenso cultivo de vinhas. Uma cidadela e um mosteiro, com duas igrejas, foram construídos sobre a acrópole. A cidade foi destruída, provavelmente por um terremoto, no século VII, sendo então abandonada.

À igreja setentrional, em estilo de basílica, com uma única abside, chegava-se através de um átrio com uma cisterna. Atrás dela, a oeste, ficava a pia batismal, em forma de cruz e uma pia menor para o batizado de crianças.

A igreja meridional, mais importante, tinha três absides no lado oriental. No chão há relicários para os restos mortais dos santos locais. No chão da nave de orações da igreja estão os túmulos dos dignatários clericais com inscrições em lajes de pedra cobrindo as tumbas, cujas datas vão de 542 a 618. Uma das inscrições dá o nome da igreja, do Martírio de S. Teodoro, conhecido também por outras inscrições, que foi abade do mosteiro de Avdat e está sepultado nesta igreja.


Os três sítios foram restaurados após as escavações e estão abertos ao público.

As escavações em Kurnub e Avdat foram conduzidas por A. Neguev, da Universidade Hebraica de Jerusalém e da Autarquia dos Parques Nacionais; as escavações em Shivta datam da década de 30. A limpeza e a restauração foram feitas em nome da Autarquia de Parques Nacionais, sob a direção de A. Aviyonah.