Robin Twite
Histórico
A busca pelo entendimento entre as diferentes religiões é fenômeno relativamente recente. Em cada época, diversos homens e mulheres têm percebido a necessidade de respeitar e aprender com aqueles que professam outras fés. Típicas, entretanto, foram as atitudes dos cruzados contra judeus e muçulmanos; dos missionários cristãos na Índia, horrorizados pelos elementos esotéricos do hinduísmo ou do animismo; dos brâmanes, para quem apenas ficar na sombra de uma pessoa de outra religião ou casta era profanação; dos muçulmanos, estimulando a "Jihad" contra os infiéis; o ódio dos judeus ortodoxos confrontados pelo fenômeno de casamentos entre judeus e não judeus. A crença religiosa tem sido, frequentemente, uma força mais divisora do que unificadora na história da humanidade.
O movimento inter-religioso internacional, que existe a cerca de um século, é uma reação ao sentimento de que a religião sempre traz consigo a semente da discórdia. Ele deve sua existência ao entendimento, entre muitos líderes religiosos, de que todas as principais religiões têm dentro delas certos ensinamentos básicos positivos sobre a natureza do homem e suas relações com Deus e que é mais adequado encontrar esses paralelos do que lançar um clamor único de compreensão da verdade suprema. À medida que o século 20 transcorria um número cada vez maior de pessoas começaram a concordar com Swami Vivekananda, pioneiro do movimento inter-religioso, que declarou em 1893: "O cristão não vai se tornar hindu ou budista, nem um hindu ou budista vai se tornar cristão. Mas cada um deve assimilar o espírito dos outros, preservar sua individualidade e crescer de acordo com suas próprias leis … santidade, pureza e caridade não são de posse exclusiva de nenhuma igreja no mundo, todos os sistemas produziram homens e mulheres de caráter elevado."
A busca por um ponto comum entre as religiões do mundo tem implicações, não só para os indivíduos, mas também para a sociedade como um todo, especialmente naquelas regiões onde o conflito é endêmico. Como declarou o professor Hizkias Assefa, quando era diretor da Iniciativa pela Paz em Nairóbi: "há conceitos e valores favoráveis em muitas fés e religiões que podem fortalecer umas as outras na luta pela busca da paz para nosso mundo conturbado".
Entretanto, o progresso desse movimento por entendimento e tolerância amargou um grave retrocesso na primeira década do século 21. A destruição das "torres gêmeas" em Nova York por extremistas muçulmanos marcou o começo de um período em que conceitos de política e religião começaram a ficar mais interligados globalmente do que tinha ocorrido em centenas de anos. O ressentimento entre os menos favorecidos, muitos dos quais muçulmanos, em relação à dominação dos Estados Unidos e Europa, combinado com o renascer da crença religiosa fundamentalista entre muçulmanos e cristãos, criou uma situação na qual muitos nas duas comunidades começaram a se referir ao "outro" como inimigo. O conflito aparentemente insolúvel entre israelenses e palestinos, que coloca judeus contra muçulmanos, juntamente com o envolvimento dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha em conflitos em países majoritariamente muçulmanos –Iraque e Afeganistão– perturba ainda mais a cena.
Esses desdobramentos negativos atingiram diretamente o Oriente Médio, que está no centro da tempestade. Mesmo antes disso, a história da região, durante os últimos séculos pelo menos, tem sido notável pelo crescimento da tolerância e do entendimento entre as religiões. Em Israel, o intenso vínculo das três religiões monoteístas a uma região que todas elas governaram em diferentes períodos e onde membros de sua fé ainda vivem, torna o país um lugar difícil para aqueles que acreditam no valor da atividade inter-religiosa.
A emergência global de duas tendências distintas entre líderes religiosos e seus seguidores tem sido ponto central de discussão nas reuniões inter-religiosas, como as Assembléias Mundiais, que acontecem a cada quatro anos, da ONG internacional "Religiões para a Paz" (anteriormente conhecida como "Conferência Mundial para a Religião e a Paz").
Uma dessas tendências podem ser descrita, de maneira geral, pelo uso da palavra "inter-religiosidade", significando o reconhecimento da validade de todas as principais tradições religiosas e a necessidade de elas se respeitarem mutuamente e trabalharem juntas. Os aspectos positivos desse enfoque é um esforço sincero para aprender sobre e reconhecer a sinceridade das crenças do outro. Isso é acompanhado por um desejo de direcionar os aspectos mais tolerantes da crença para a criação de paz e harmonia entre os povos e as nações. Conforme já foi dito, essa tendência ganhou força durante o último século.
A segunda tendência, o "fundamentalismo," reflete um desejo de retornar à crenças básicas de cada um dos fundadores das religiões e a uma interpretação literal dos seus livros sagrados. Tal retorno às crenças fundamentais podem levar a uma sensação de grande confiança dentre os seguidores que sentem que eles encontram refúgio na segurança da fé.
Esses dois enfoques têm seus pontos fracos. Um olhar inter-religioso pode facilmente levar a um certo idealismo vago. Isso dilui a essência de cada sistema religioso e tende a refletir uma boa vontade generalizada, um exercício de boa-vontade insípido, que não é, em última instância, nem eficiente, nem convincente. Em contraste, o fundamentalismo, que é claramente definido, com frequência incorpora, juntamente com um elemento forte de fé, a intolerância. A segurança sentida pelos fiéis manifesta-se frequentemente como uma atitude hostil em relação àqueles com sistemas de crença diferentes. Isso pode ser visto claramente nos acontecimentos desde 11 de setembro de 2002, que, conforme destacado anteriormente, provocou uma mudança de atitude entre muitos fiéis de todas as três fés monoteístas, tornando isso ainda mais difícil para aqueles que buscam promover a tolerância e o entendimento.
Inter-religiosidade em Israel – uma situação complexa
A questão das relações inter-religiosas em Israel é complicada pela necessidade de considerar não somente o cotidiano das relações entre as diferentes religiões no próprio país, mas também uma perspectiva mais ampla. Para cristãos, judeus e muçulmanos, Jerusalém, a capital de Israel, é a Cidade Sagrada e a terra entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo é sagrada. Para os judeus é sua terra natal e o centro de sua fé; para os cristãos é local de peregrinação, onde Jesus viveu e morreu; para os muçulmanos, como mencionado em um relatório recente comissionado pela UNESCO afirma "a importância suprema de Jerusalém como terceira em santidade (depois de Meca e Medina) nunca será posta em dúvida".
Para os membros das três religiões, Israel tem um significado especial. Cada uma tem seus santuários e locais religiosos aos quais são vinculadas e em relação aos quais há uma luta constante por hegemonia e controle. Isso molda a forma pela qual as três religiões se relacionam umas com as outras em Israel, mais do que um significado puramente religioso. Também dá importância especial ao relacionamento com seus correligiosos fora de Israel e com os movimentos espirituais, intelectuais e teológicos nas comunidades religiosas mais amplas às quais pertencem.
Em Israel, dentre os praticantes de todas as religiões, encontram-se os defensores da harmonia inter-religiosa e aqueles cuja interpretação da fé consiste da obediência literal às escrituras. O ultimo grupo é frequentemente hostil à crenças diferentes das deles próprios: isso, em muitos casos, deriva da ignorância sobre essas outras religiões, mas mais frequentemente da crença fervorosa, que os torna vulneráveis à manipulação pelos líderes religiosos, que não têm prezam a tolerância.
Aqueles em Israel que acreditam no entendimento inter-religioso obtém apoio intelectual dos representantes da atividade inter-religiosa a nível mundial, como "Religiões para a Paz", das organizações dedicadas a impulsionar o entendimento entre as religiões, como o Conselho para Cristãos e Judeus e aqueles dentro das religiões estabelecidas que acreditam no entendimento inter-religioso. Eles têm sido capazes, ao longo dos anos, de obter suporte financeiro limitado das fundações internacionais.
Aqueles que são atraídos pelo enfoque fundamentalista são encorajados por forças externas, como os protestantes pentecostais dos EUA, que são inabaláveis em seu apoio a Israel e sua indiferença às crenças muçulmanas ou os professores muçulmanos das principais escolas islâmicas do Oriente Médio, alguns dos quais fornecendo apoio teológico para o conceito de "Jihad".
Desse modo, assim como de muitos outros, Israel é um microcosmo do mundo como um todo, onde a tolerância confronta o fanatismo e a batalha entre eles é travada sobre uma abundância de temas nas mais variadas formas. Naturalmente, portanto, as relações inter-religiosas em Israel foram afetadas de modo adverso pelos acontecimentos mundiais desde 2002.
O filósofo Martin Buber, ao imigrar para Israel em 1938, começou a ensinar um ramo do humanismo judaico. Essa filosofia conclamava um reconhecimento mútuo entre as religiões, com base na percepção de que havia certos conceitos básicos comuns ao judaísmo, islamismo e cristianismo e, na verdade, com todas as principais religiões. Talvez, não surpreendentemente, Buber enfrentou considerável hostilidade dos círculos judaicos ortodoxos e nunca obteve em Israel o alto nível de apreciação e reconhecimento que ele desfrutava na Europa antes da Segunda Guerra.
Entretanto, Buber consegui se cercar de um grupo de pessoas que compartilhavam a sua Weltanschauung [cosmovisão, em alemão] - cristãos, judeus e muçulmanos. Com a ajuda deles ele estabeleceu em Israel a Associação Inter-religiosa, cujo objetivo era a criação de melhores relações entre os membros das três religiões no país. Durante os últimos 40 anos, a Associação conduziu uma ampla variedade de seminários e conferências, publicou livros e panfletos e tem sido ativa junto aos organismos internacionais dedicados à criação de um entendimento mundial entre os representantes das diferentes religiões.
Entretanto, a influência de Buber e de seus seguidores teve apenas impacto limitado no país. Há diversas razões para isso. Uma delas é que o clima político em Israel não tem sido muito favorável. Muitos israelenses e suas famílias sofreram nas mãos de cristãos na Europa durante o Holocausto. Outros, padeceram de modo menos emocional, mas também doloroso, pois perderam dinheiro e propriedades quando vieram para Israel nos anos de 1950, de vários países do Oriente Médio. Os sentimentos de hostilidade entre os israelenses foi exacerbado pelo fato de que as guerras que Israel lutou foram contra estados vizinhos cujos cidadãos eram majoritariamente muçulmanos, mesmo aqueles onde os governos era seculares por natureza. Os eventos na última década não contribuíram em nada para melhorar tal hostilidade.
Mais ainda, Israel sempre foi governado por administrações seculares, seja por socialistas relativamente indiferentes à religião de qualquer tipo ou por nacionalistas para quem a religião judaica era essencialmente um instrumento de um estado em construção, um meio de se criar uma identidade nacional. Os dois grupos tendiam a considerar os cristãos e os muçulmanos em Israel, virtualmente todos eles árabes, como sendo politicamente não confiáveis. Embora as autoridades tenham sido meticulosas em suas atitudes para com as instituições religiosas e tenham protegido os lugares sagrados de cristãos e muçulmanos de acordo com o status quo estabelecido sob os Otomanos no final do século 19, têm demonstrado pouco interesse em promover um melhor entendimento entre essas minorias e a maioria judaica.
A maioria dos dez a quinze por cento da população judaica (as opiniões diferem sobre o número preciso) que é estritamente ortodoxa ou nacional-religiosa em sua orientação, tende a ver as outras religiões como entidades hostis que têm que ser combatidas em todos os níveis. Muitos deles se opõem ativamente a qualquer iniciativa para se criar um diálogo com as pessoas de outras religiões. Nessa comunidade, os líderes e suas congregações têm sido ou indiferentes ou ativamente contrários ao entendimento inter-religioso.
A grande maioria dos judeus, seja ortodoxo, moderado em suas crenças religiosas ou seculares, tem conhecimento mínimo sobre as crenças básicas das outras religiões. A maioria dos judeus jovens em Israel nunca se encontrou socialmente com um cristão ou com um muçulmano. .
As atitudes dos muçulmanos também não têm sido mais positivas. Em 1948, os países árabes que invadiram Israel foram derrotados na guerra subseqüente e os árabes que não se tornam refugiados tornaram-se minoria dentro do estado judaico. Eles aprenderam hebraico e se adaptaram à vida em uma sociedade dominada pelos judeus de forma considerável, mas seus líderes têm sido, como no caso dos comunistas, ativamente hostis a todas as religiões ou, como no caso dos clérigos islâmicos, tendem a ver no judaísmo a religião dos seus opressores que, eles entendem, os transformaram em cidadãos de segunda classe.
Os muçulmanos em geram têm demonstrado pouco interesse na atividade inter-religiosa e seu conhecimento dos sistemas de crença e atitudes de seus vizinhos é, se houver algum, ainda menor do que o dos cristãos e judeus. Tem havido indivíduos notáveis que tomaram parte das atividades inter-religiosas, mas eles têm sido poucos em número e seus esforços têm sido recentemente ofuscados pela identificação, nas mentes de muitos judeus em Israel, entre o islamismo e a violência promovida pelo Hizbollah no Líbano e pelo Hamas em Gaza, movimentos militantes muçulmanos que encabeçam a oposição aos processos de paz.
Os cristãos árabes vivendo em Israel (menos de três por cento da população), em sua maioria greco-ortodoxos ou greco-católicos, hesitam algumas vezes com relação às iniciativas inter-religiosas. Consideram seu envolvimento como potencialmente perigoso para a sua já enfraquecida posição vis-à-vis os muçulmanos. Tendem, portanto, a permanecer afastados de qualquer coisa que leve os árabes muçulmanos a considerá-los engajados em um diálogo positivo com representantes do judaísmo.
Nos últimos anos, a oposição a alguns aspectos da política governamental de Israel tendeu a unir cristãos e muçulmanos. Ainda assim, é questionável até que ponto as atitudes básicas em relação uns com os outros tenha mudado. Os cristãos temem os muçulmanos, especialmente o fundamentalismo muçulmano e os muçulmanos tendem a considerar os cristãos não completamente confiáveis e, em alguns casos, muito próximos do Ocidente.
Os cristãos, judeus e muçulmanos em Israel tendem a permanecer dentro de suas próprias culturas e sociedades e, portanto, têm pouco conhecimento das crenças dos demais. Isso se reflete no currículo dos sistemas escolares judeus e árabes, onde as referências a outras religiões são mínimas. É justo dizer que o ministro da educação de Israel não se empenhou muito em revisar o currículo para incluir informações aos jovens sobre outras religiões que não a sua própria.
Contribuições positivas à atividade inter-religiosa
O encorajamento do trabalho inter-religioso tem, entretanto, vindo de várias direções. Representantes das igrejas Católica e Protestantes provenientes de fora de Israel que vivem na Terra Santa por razões religiosas ajudando a cuidar dos lugares sagrados cristãos têm liderado o processo, realizando diversas tarefas relativas à peregrinação e conduzindo trabalho educacional e social, principalmente junto à população árabe.
Os católicos entre eles são membros de uma igreja que nos últimos 50 anos tem se afastado de sua posição anterior de vigoroso antagonismo em relação a outras denominações cristãs, à comunidade judaica e a outras religiões. Em 1962, a Igreja, sob o comando do Papa João XXIII, removeu da liturgia material contaminado pelo antissemitismo e iniciou um novo relacionamento entre o judaísmo e o cristianismo. Quase ao mesmo tempo, as relações da Igreja Católica com as Igrejas Anglicana e Luterana melhoraram consideravelmente e o diálogo foi estabelecido entre as comunidades orientais da Igreja Ortodoxa Grega, os Armênios, a Igreja Cóptica do Egito e outras.
A decisão de estabelecer um instituto ecumênico em Tantur, próximo a Belém, tomada em 1964, serviu como símbolo do desejo da Igreja Católica de estender sua nova política de reaproximação à Terra Santa. Tantur oferece cursos para clérigos cristãos que desejam se familiarizar com a Terra da Bíblia. Seus cursos incluem material destinado a ensinar o entendimento do judaísmo e do islamismo e seu corpo docente inclui cristãos, judeus e muçulmanos. Com igual importância, serve como local de encontro para israelenses e palestinos que desejam compartilhar experiências ou debater suas diferenças em um espírito criativo. Tantur oferece uma atmosfera segura para o diálogo.
Um proeminente religioso católico, o falecido padre Bruno Hussar, se aventurou em um novo território quando, nos anos 80, ajudou a estabelecer o assentamento rural de Neve Shalom, próximo a Jerusalém, onde famílias árabes e judias vivem juntas e onde há um centro inter-religioso para meditação.
Outras igrejas cristãs cuja liderança vêm da Europa e da América do Norte também estão ansiosas em melhorar o diálogo inter-religioso em Israel. A Igreja Presbiteriana da Escócia, as igrejas protestantes da Suécia, a Igreja Reformista da Holanda, e outras têm sido ativas na promoção de atividades destinadas a encorajar o entendimento inter-religioso.
Talvez as iniciativas mais bem-sucedidas tenham sido nas áreas rurais da Galiléia, habitada por cristãos, muçulmanos e judeus. Dentre elas, há a iniciativa de Elias Jabbour, cuja "Casa da Esperança" na pequena cidade de Shfaram, perto de Haifa, oferece atividades destinadas a engajar as comunidades locais de cristãos, muçulmanos e judeus na comunicação e no diálogo. O padre Elias Cachour, um sacerdote greco-católico radical e energético na vila de Ibellin na Galiléia ocidental, fundou uma escola secundária bem-sucedida onde os alunos são cristãos e muçulmanos e diversos membros do corpo docente são judeus. .
Outras forças positivas do ponto de vista inter-religioso incluem as correntes conservadora e reformista do judaísmo, mais abertas ao diálogo com outras religiões, sendo que ambas continuam a ter grandes dificuldades para se estabelecer no país em face da oposição ortodoxa. Os rabinos ortodoxos têm sido muito ativos individualmente, dentre eles o rabino David Rosen, que foi rabino-chefe na Irlanda e que agora ocupa uma posição única no diálogo inter-religioso, em sua função como diretor de assuntos religiosos no Comitê Americano-Judaico, copresidente da "Religiões para a Paz" e participante ativo em muitas atividades dedicadas ao entendimento religioso em todo o mundo. Ele desempenhou um papel importante nas negociações com o Vaticano que levaram ao reconhecimento de Israel em 1993 e no estabelecimento da comissão bilateral para o diálogo entre o Rabinato Chefe de Israel e a Santa Sé, um desdobramento muito significativo, permitindo que judeus e católicos para analisem regularmente seu relacionamento e respondam aos desafios apresentados ao entendimento mútuo.
Também é digno de nota que o chanceler israelense tem dado amplo apoio à atividade inter-religiosa. Isso pode ser visto como uma indicação do objetivo final da política externa de Israel que busca promover o entendimento inter-religioso com o objetivo de melhorar as relações com mais países e entre as comunidades dentro do próprio Israel (embora sem dedicar, necessariamente, recursos para este fim).
As iniciativas da Associação Inter-religiosa de Israel, já mencionada, foi impulsionada pelo estabelecimento do Conselho de Coordenação Inter-religioso em Israel (ICCI, sigla em inglês) em 1991. Ele busca promover o entendimento inter-religioso e a harmonia cultural em Israel e funciona como uma casa de compensação para informações sobre atividades inter-religiosas no país e no exterior. Também promove atividades destinadas a reunir aqueles que buscam um melhor entendimento das religiões das demais pessoas. Recentemente, o ICCI tem dado ênfase no trabalho com jovens e com mulheres.
Dentre as 60 ou mais organizações que participam do ICCI, algumas, como a Fraternidade Teológica Ecumênica, um grupo de teólogos e clérigos orientados academicamente, concentram-se principalmente no diálogo entre cristãos e judeus enquanto outros, como o Centro de Seminários para o Pluralismo no Kibbutz Malkiya, estão envolvidos na promoção das relações comunitárias. Alguns, como as Irmãs de Sião, ordem católica fundada na metade do século 19 para promover o entendimento entre cristãos e judeus, são trabalhadoras de longa data em seu campo inter-religioso, enquanto outros se desenvolveram recentemente. É notável, entretanto, que algumas das organizações listadas como membros do ICCI sejam especificamente muçulmanas.
Particularmente ativo tem sido o "Centro Jerusalém para as Relações Judaico-Cristãs" que busca envolver uma porção mais ampla da sociedade judaica em Israel com as comunidades cristãs locais. Suas atividades destinam-se a superar a ignorância e os estereótipos negativos e a promover o entendimento entre judeus e cristãos árabes nativos. Embora fundada em 2004, perto de 4 000 pessoas estiveram envolvidas em suas atividades em 2008.
Outra organização dedicada às questões inter-religiosas, a "Associação de Encontros Inter-religiosos", tem trabalhado não somente dentro de Israel, mas tentado arduamente ampliar o escopo da atividade inter-religiosa de modo a incluir as comunidades na Palestina. A associação organizou diversos encontros envolvendo, de acordo com o seu relatório anual, mais de 4 000 pessoas. Ela dá ênfase especial na formação de grupos de mulheres de diferentes grupos religiosos.
Enquanto a maioria dos diálogos inter-religiosos em Israel durante os últimos 60 anos tenha sido dedicado à criação de melhores relações entre a Igreja Católica e os judeus através do esclarecimento de mal-entendidos teológicos, há agora um desejo entre todos os envolvidos em atividades inter-religiosas em Israel para ampliar o diálogo para incluir mais comunidades cristãs, muçulmanos e representantes da comunidade ortodoxa judaica locais. Mas o progresso nessa frente é lento.
A principal conferência internacional realizada em Jerusalém nos anos 90 foi uma manifestação positiva sobre o valor do diálogo inter-religioso. Cerca de 600 líderes cristãos e judeus se encontraram para discutir os desafios colocados à religião pela ciência e pelos novos desdobramentos sociais. Cardeais proeminentes, o patriarca latino de Jerusalém (um árabe cristão), o arcebispo de Canterbury, bispos da África e da Ásia, rabinos-chefe da França e da África do Sul, e rabinos e acadêmicos de Israel se misturaram a cientistas e sociólogos de forma impensável há algumas décadas. Houve alguma oposição à conferência nos círculos judaicos ortodoxos mas, no geral, a iniciativa foi bem-sucedida. Mas seu impacto a longo prazo foi limitado…
O mesmo pode ser dito de um encontro dramático que ocorreu em 2002 que simbolizou o reconhecimento por parte dos líderes religiosos da região e de além dela de que precisavam desempenhar um papel ativo na resolução do conflito israelense-palestino. Sob os auspícios dos líderes religiosos do arcebispado de Canterbury, líderes religiosos incluindo o rabino-chefe sefardita de Israel, o grande xeque de Al Azar no Egito, os proeminentes xeques muçulmanos da Cisjordânia e os chefes de diversas denominações cristãs de Jerusalém e de outros lugares, se reuniram em Alexandria e assinaram a "Declaração de Alexandria" que instou todas as partes no conflito a conter a violência e instruiu os seguidores das três religiões a praticar a tolerância e o entendimento em uma iniciativa para promover a paz. Não é fácil, entretanto, rastrear qualquer resultado direto da Declaração: iniciativas subsequentes para realizar reuniões de seguimento e influenciar diretamente a política não tiveram nenhum impacto aparente. Em geral, as lideranças religiosas não desempenharam um papel significativo na promoção da paz, pelo menos até agora, conforme aparece na mídia; embora haja sempre a possibilidade de que alguma influência tenha sido exercida nos bastidores.
Mais recentemente, ocorreu um diálogo significativo sob os auspícios do Congresso Mundial de Imames e Rabinos para a Paz que, na conferência realizada na Espanha em 2006, estabeleceu um comitê para a proteção dos Lugares Sagrados ao qual serve, dentre outros, o rabino Cohen, rabino-chefe de Haifa, e o imame Imad AL Falouji de Gaza. O congresso também iniciou programas educacionais destinados a informar os jovens sobre os principais ensinamentos das três religiões abraâmicas e sua relevância no sentido da tolerância.
Conclusão
Hoje, conforme vimos, grandes grupos estão virtualmente fora do diálogo inter-religioso; a grande maioria dos adeptos do islamismo (tanto líderes como congregações), bem como os rabinos e comunidades de judeus ortodoxos. As atitudes com relação ao trabalho inter-religioso entre cristãos locais variam muito, mas há sinais de que suas lideranças estão se tornando mais conscientes das questões inter-religiosas e mais cristãos estão tomando parte das atividades. Entretanto, totalmente representados em tais atividades estão apenas os cristãos do "Ocidente" que devem sua força aos contatos fora de Israel, à parcela liberal da opinião judaica e a certos líderes religiosos cujos pontos de vista são mais amplos do que os da maioria dos seus colegas
Aqueles que buscam o diálogo inter-religioso para transformar as relações entre as comunidades em Israel ou para promover uma paz duradoura na região são provavelmente irrealistas. A religião em Israel e no Oriente Médio é geralmente maior motivo de dissonância do que de harmonia. Mas isso não quer dizer que as iniciativas inter-religiosas são uma perda de tempo. O processo lento e doloroso em direção a um reconhecimento e entendimento mútuo, que já selou algumas das rupturas entre judeus e cristãos e entre diversas igrejas cristãs, continuará em Israel apesar de retrocessos e da difícil atmosfera política. O ressurgimento do fundamentalismo, que fortalece o ódio e a suspeita em relação aos outros, acrescenta nova urgência a essas iniciativas.
A atividade inter-religiosa em Israel é, conforme foi deixado claro, em grande parte uma atividade da minoria. Relativamente poucos israelenses, qualquer que seja a religião que professem, estão diretamente envolvidos e as atividades das diversas organizações mencionadas acima acontecem em larga escala em Jerusalém e na Galiléia pela razão óbvia de que nessas áreas encontra-se a maioria das comunidades muçulmanas e cristãs. Alterar esse estado de coisas exigiria que o governo de Israel tivesse uma atitude mais positiva para o entendimento inter-religioso e, mais importante talvez, o investimento de fundos pelas diversas organizações religiosas envolvidas ou por doadores internacionais. A falta de financiamento limita bastante as iniciativas de todas as organizações inter-religiosas no país e impede o estabelecimento de centros inter-religiosos e o lançamento de iniciativas conjuntas patrocinadas por representantes das três religiões nos campos da educação e relações comunitárias, o que poderia ativamente ajudar a promover o entendimento entre parcelas maiores da população.
A esperança é de que a religião possa, a longo prazo, ser um meio de promover o entendimento e a paz, e não o fortalecimento do preconceito e do ódio. Como antigo patriarca latino de Jerusalém, Michael Sabbah disse: "Como três comunidades da fé abraâmica, cristã, muçulmana e judaica, nós testemunhamos dentre alguns fiéis a exploração e a manipulação da religião com o objetivo de alimentar o fanatismo em nome de Deus e às custas da pessoa humana e das comunidades. O Deus da santidade, da verdade e do amor universal é substituído por ídolos grosseiros, moldados pelo mal que existe dentro de nós. Todos temos que descobrir a nossa santidade, a transcendência de Deus e do Seu amor, que é o nosso guia autêntico em direção à aceitação e respeito mútuos em nossa vida diária e na renovação da face da nossa terra e de Jerusalém, nossa cidade, mãe e pátria espiritual de todos os crentes."