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Papa Bento XVI e as relações católico-judaicas

20 Apr 2009

 

pelo rabino David Rosen

A recente controvérsia sobre o cancelamento da excomunhão de Richard Williamson e seus colegas bispos da Sociedade de São Pio X gerou a impressão de que pode haver algum retrocesso no Vaticano em relação ao recente compromisso com as relações católico-judaicas e, em particular, com o combate ao antissemitismo. As declarações da Secretaria de Estado do Vaticano e do próprio papa, quando ele recebeu uma delegação do comitê bilateral do Rabinato Chefe de Israel e da Comissão da Santa Sé para as Relações Religiosas com o Judaísmo esclareceram que nada pode estar mais longe da verdade.
O Vaticano e o papa deixaram claro que o cancelamento da excomunhão não significa uma reintegração desses bispos, que não serão aceitos de volta na igreja até que ratifiquem as decisões do Conselho Vaticano Segundo que inclui ensinamentos positivos sobre os judeus e o judaísmo.

Mas, acima de tudo, o papa não só reafirmou o repúdio incondicional da Igreja ao antissemitismo e à negação do Holocausto, mas também reiterou a importância de esclarecer as pessoas sobre o Holocausto e repetiu especialmente o profundo compromisso em continuar na trilha do seu antecessor em avançar nas relações católico-judaicas.

Aqueles que estão familiarizados com a história do papa Bento XVI não se surpreenderão com isso.

Ele foi o primeiro papa a convidar os líderes judaicos para o funeral do papa João Paulo II e, acima de tudo, para a celebração da sua própria ascensão ao trono de S. Pedro em 2005.

Após pouco mais de um mês ele recebeu uma delegação do Comitê Judaico Internacional para Consultas Inter-Religiosas. Esse organismo superior, envolvendo as principais organizações de defesa do judaísmo e as principais correntes do judaísmo contemporâneo, é o parceiro oficial da Comissão da Santa Sé para Relações Religiosas com o Judaísmo. Ele recebeu essa delegação judaica quase que imediatamente após iniciar seu pontificado, antes de ter recebido delegações de corpos representativos de outras correntes do cristianismo, sem falar das outras religiões.

Nesse encontro ele declarou: "nos anos após o Conselho [Segundo Conselho Ecumênico do Vaticano], meus antecessores o papa Paulo VI e, de modo especial, o papa João Paulo II, deram passos significativos em direção às relações com o povo judeu. É minha intenção continuar nesse caminho". Além disso, o primeiro local de oração divina de outras comunidades religiosas visitadas pelo papa Bento XVI foi à sinagoga de Colônia, que ele visitou em agosto de 2005 durante a sua jornada à Alemanha no Dia Mundial da Juventude.

Naquela ocasião, ele se referiu ao encontro acima declarando "hoje eu desejo reafirmar que pretendo continuar com grande vigor no caminho que leva à melhoria das relações e amizade com o povo judeu, seguindo a liderança decisiva do papa João Paulo II". Nas duas ocasiões ele expôs suas ideias sobre a natureza e o propósito dessa relação. Enquanto reconheceu o passado trágico e deplorou o antissemitismo ressurgente, afirmou que "o patrimônio espiritual prezado por cristãos e judeus é, em si, fonte de sabedoria e inspiração capaz de nos guiar na direção de um futuro de esperança, de acordo com o plano divino. Ao mesmo tempo, a lembrança do passado permanece para as duas comunidades como um imperativo moral e uma fonte de purificação em nossos esforços de orar e trabalhar por reconciliação, justiça, respeito e dignidade humana e para aquela paz que é, em última instância, um presente de Deus. Por sua própria natureza, essa importância deve incluir uma reflexão contínua sobre as questões morais e teológicas profundas colocadas pela experiência do Holocausto".

Ainda em seu primeiro ano de pontificado, o papa Bento continuou a se reunir com diversas organizações e líderes judaicos, incluindo o rabino-chefe de Israel e o rabino-chefe de Roma. Ao receber este último, ele declarou que "a Igreja católica é próxima e amiga dos judeus. Sim, nós amamos os judeus e não pode ser diferente, por causa dos patriarcas: através deles, vocês são nossos irmãos muito queridos e amados".

O papa também expressou sua gratidão pela proteção divina ao povo judeu que garantiu a sua sobrevivência no curso da história:
"O povo de Israel foi salvo das mãos dos inimigos em frequentes ocasiões; nos séculos de antissemitismo e durante os momentos trágicos do Holocausto, a mão do Todo-Poderoso os sustentou e os guiou." Essas ideias têm sido recorrentes nos escritos de Joseph Ratzinger. Em dezembro de 2000, em um artigo intitulado A Herança de Abraão: O Presente de Natal publicado no Observatório Romano, ele escreveu: "Abraão, pai do povo de Israel, pai da fé, tornou-se a origem da benção, porque nele 'todas as famílias da terra poderão chamar a si mesmas de abençoadas.' A tarefa do Povo Escolhido é, portanto, fazer um presente do seu Deus, o verdadeiro Deus, a todos os outros povos. Na realidade, como cristãos, somos herdeiros da fé do povo judeu em um Deus. Nossa gratidão, portanto, deve ser estendida aos nossos irmãos e irmãs judeus que, apesar das dificuldades de sua própria história, mantiveram a fé em Deus até o presente e dela são testemunhas…". Nesse mesmo artigo, o então Cardeal Ratzinger tratou da questão do antissemitismo e o grau em que o cristianismo esteve a ele associado. Ele afirma: "Ao longo da história do cristianismo, as relações já tensas se deterioraram ainda mais, até mesmo dando origem, em muitos casos, a atitudes antissemitas que, no decorrer da história, levaram a atos deploráveis de violência. Mesmo se a recente abominável experiência do Holocausto foi perpetuada em nome de uma ideologia anticristã, que tentou forçar a fé cristã nas suas raízes abraâmicas no povo de Israel, não se pode negar que a resistência insuficiente a essa atrocidade por parte dos cristãos pode ser explicada pela presença de um antijudaísmo herdado no coração de muitos cristãos."

Essa condenação ao antissemitismo inclui uma descrição do nazismo que nem todos compartilham. O papa repetiu essa ideia quando visitou o local dos campos de extermínio em Auschwitz-Birkenau em maio de 2006.

Ao descrever as intenções do nazismo, ele declarou: "No fundo, esses cruéis criminosos, ao exterminar esse povo, queriam matar o Deus a quem Abraão chamava, que falou no Sinai e estabeleceu os princípios para servir como guia para a humanidade, princípios eternamente válidos. Se esse povo, por sua própria existência, foi testemunha do Deus que falou à humanidade e nos levou até Ele, então aquele Deus teria que morrer e seu poder teria que pertencer ao homem apenas, homens que pensavam que pela força poderiam se tornar donos do mundo. Ao destruir Israel, pelo Holocausto, em última instância queriam arrancar a raiz central da fé cristã e substituí-la pela fé em de sua própria criação..."

Embora muitos possam discordar da análise do papa Bento XVI, seguramente não há argumento mais poderoso para os cristãos evitarem todo o preconceito antissemita do que aquele oferecido por suas afirmações.

É significativo condenar o antissemitismo como mal e é extraordinário condená-lo como "um pecado contra Deus e os homens" como fez o papa João Paulo II (palavras que foram reiteradas pelo próprio papa Bento XVI). Entretanto descrever o antissemitismo como um assalto contra as próprias raízes do cristianismo e que um cristão, ao abrigar tais sentimentos ataca e trai sua própria fé é uma mensagem de grande importância pedagógica na luta contra o ódio dirigido contra os judeus e o judaísmo.

Conforme já indicado, Bento XVI vê a Igreja como tendo uma relação especial e única com o povo judeu. Isso inevitavelmente deve levar em conta as asserções centrais da fé e da identidade judaica contemporânea. Nesse sentido, o papa tem profundo entendimento do significado do Estado de Israel para o povo judeu. Como Cardeal Ratzinger, ele fazia parte do comitê especial da Santa Sé que revisou e autorizou o estabelecimento de relações plenas entre Israel e o Vaticano.

Dentre seus amigos próximos em Israel de muitos anos (que incluiu o último prefeito de Jerusalém, Teddy Kollek) está o Prof. Zwi Werblowsky, um dos judeus israelenses pioneiro no diálogo inter-religioso. O então Cardeal Ratzinger telefonou para Werblowsky em Jerusalém para expressar sua alegria sobre esse desenvolvimento, descrevendo-o como fruto do trabalho do Segundo Conselho Ecumênico do Vaticano.

Nem todos na Igreja aprovam o papel central que Israel desempenha na identidade judaica contemporânea e histórica. O papa Bento XVI sim, e ele entende perfeitamente que o relacionamento entre o Vaticano e o Estado de Israel está inseparavelmente vinculado com a relação entre o povo judeu e a igreja católica.

É evidente que isso não acontece sem complicações tanto em termos dos interesses da igreja local em Israel e dos territórios palestinos, como dos interesses da Santa Sé dentro e em relação ao mundo árabe e a sociedade muçulmana como um todo. É obvio que esses conflitos de interesse frequentes são substancialmente afetados pelo conflito israelense-palestino.  Da mesma forma, o tema oração pela paz na Terra Santa tem sido recorrente nas homilias e mensagens do papa, indicando que tal paz seria uma fonte de benção, não somente para as pessoas e as religiões nesta terra, mas também para o mundo como um todo. Na verdade, Bento XVI frequentemente se refere à necessidade de judeus e cristãos orarem e trabalharem juntos pela paz no mundo como um todo.
Nessa reunião com a delegação do Rabinato Chefe de Israel acima mencionada, liderada pelo rabino-chefe She'ar Yashuv Cohen, o papa expressou que sua futura visita a Israel avançará as relações entre católicos e judeus e também a paz na Terra Santa e além dela. Embora todas as pessoas de boa vontade compartilhem esse último desejo, a situação atual local faz com que muitas pessoas sejam céticas em relação à sua real viabilidade. Entretanto, há poucas dúvidas de que a visita do papa Bento XVI irá contribuir significativamente para avançar ainda mais a transformação histórica em nosso tempo nas relações entre a igreja católica e o povo judeu.

O escritor, antigo rabino-chefe da Irlanda, chefia o Departamento de Assuntos Inter-Religiosos do Comitê Judaico Americano e é conselheiro honorário de relações inter-religiosas junto ao Rabinato Chefe de Israel.

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